quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Um poeta e Suas Poesias
Triste sina. Dom ingrato. Escrever-cantar-falar sobre o amor. E como seria o amor de um poeta? Como é a vida-relacionamento de alguém que conhece a fundo toda a magia por detrás de um sorriso e de um abraço? Como é acordar ao lado de alguém que conhece todos os mistérios existentes no coração humano e sabe usar as palavras certas, no momento certo? Seria um conto de fadas? Esses homens são raros, a concorrência deve ser enorme, não é? Esses poetas são caras de muitas e muitas mulheres, não é?
Não, não é.
Um poeta não é um homem comum, homens comuns constroem casas; poetas fazem as pessoas sonharem em ter lar. Homens comuns dizem “eu te amo”. Poetas dizem “Eu tenho milhões de formas de dizer o que eu sinto por você, e ainda assim é pouco”. Homens comuns vão a restaurantes caros, compram flores, cartões. Poetas roubam estrelas e nuvens, gravam em um pedaço de papel, tocam a campainha da pequena, deixam ali e acompanham o maior sorriso do mundo se abrir, de longe. Poetas amam presenciar a felicidade à distância. A distância tudo é bonito, surreal. A distância encobre as imperfeições, os buracos. E muitas vezes, assim é a vida sentimental de um poeta.
Todo poeta sonha com um amor eterno, e escreve sobre ele; mesmo que desconfie que realmente ele exista. Cita detalhes profundos e únicos sobre tal, mas talvez nunca o experimentou.
Um poeta escreve sobre saudades, reconciliação, brigas, falta de brigas; e tantas vezes, nunca sequer os sentiu ou viveu. É um prisioneiro de um mundo utópico muito bonito, visto de fora, porém; solitário e frio, visto por dentro.
Um poeta é um homem de muitas mulheres, que escreve sobre muitas mulheres, sonha com muitas mulheres; todas personagens de seus textos. Mas quando ama, sabe que é impreterível ser fiel. Ele é fiel, a ela, a ele, as palavras. Ele não brinca de amor. Sabe que o amor é um sentimento sério demais para ouvir piadas. E que uma vez, perdido; o amor talvez nunca mais seja encontrado. Ele pode ter quantas mulheres quiser, quando quiser, de todas as cores, de todos os humores, de todos os sabores. Não, um poeta não se parece em nada com o Martinho da Vila. Ele carrega todas as qualidades e defeitos de uma mulher em sua caneta. Conhece as muitas facetas de uma fêmea; ainda que no fim do dia não tenha nenhuma pra lhe fazer um afago ou trocar mensagens.
Um poeta escreve sobre a felicidade, mesmo que ainda não tenha encontrado. Escreve sobre atristeza, mesmo quando não tem motivo nenhuma para o choro. Escreve sobre a vida, mesmo quando tudo ao seu redor esta de luto.
Um poeta sonha em encontrar alguém. Não a mulher perfeita ou imperfeita que ele cita em suas poesias; mas alguém que lhe inspire a não escrever sobre nenhuma outra. Sonha em viver um romance nada parecido com os que escreve. Poetas curtem coisas simples, pessoas simples, prazeres simples. Escrever já é “hollywoodiano” demais, pomposo demais. Bom mesmo é dividir um pedaço de pizza com quem se ama. Bom mesmo é passear de mãos dadas na praia. Bom mesmo é ter barriguinha saliente, e não ser o mocinho perfeitinho e sarado que enfeitam os sonhos de todas as meninas-mulheres por ai.
Um poeta não é um príncipe encantado. Longe disso. Ele é defeituoso, como tem que ser. Tem dias de mau humor e dias risos soltos. Tem dias de romantismo e dias de ogro. Sim, um poeta não é um homem só. Ele pode ser todos os homens do mundo, só precisa da motivação certa.
Case-se com um poeta e nunca lhe faltará mimos-poeminhas em papel de pão. Talvez falte pão, poemas não. Case-se com um poeta e nunca mais lhe faltará companhia para um bom livro ou filme. Case-se com um poeta e jamais se arrependa. Pode-se até pensar em assassinato, mas em divórcio; nunca.
Um poeta pode até ser um péssimo namorado,péssimo amigo, péssimo marido, péssimo motorista, péssimo confidente. Porém perdoa com um sorriso, acredita, ainda que ninguém mais. Tenta de novo, e depois de novo. Amar é uma eterna tentativa para se viver o eterno.
O amor de um poeta é tão incrível, que só existe em sua cabeça. E vez ou outra, em seu coração.
S.Soares
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