Impossível esquecer aquele sorriso, eu tentei, tentei
muito; mas é como se ele se abrisse pra mim toda vez que eu tentasse esquecê-lo.
Eu tentava e ele se abria.
Me lembro o dia em que a conheci, ela não parava de
sorrir; como alguém que encontrou a felicidade que procurou a vida toda, e o
motivo, pasmem, parecia ser eu.
Ela olhava fundo nos meus olhos e me abraçava forte, como
alguém que parecia ter encontrado alguém especial; alguém que ela não queria
soltar nunca mais, esse alguém era eu.
Achei estranho, algo novo pra mim; ela apertava minha mão
a cada 10 segundos e me beijava; como quem custava acreditar que não estivesse
sonhando. Como alguém que acabava de realizar um sonho antigo; o motivo era eu.
Ela me admirava tanto, me elogiava tanto; com ela eu me
sentia importante, amado. Ela adorava as minhas poesias e chorava me ouvindo
cantar; e eu nem tenho tanto talento assim.
Ela parecia tão louca por mim, que as suas atitudes e
palavras curaram a minha auto-estima. Ela parecia ter encontrado o príncipe
encantado que toda menina espera, com cavalo branco e tudo; esse príncipe, era
eu.
Ela falava em casamento, em ser minha pra sempre; tinha
pressa em dizer “sim” diante da igreja. Se vestia pra mim, pedia minha opinião.
Se maquiava pra mim, do jeito que eu sugeria. E usava sempre o perfume que me
deixava maluco. Como alguém que encontrou o amor, o sabor, o motivo; esse
alguém era eu.
Quando de repente, acabou. Sem explicação, sem motivos. E
eu, que era a felicidade, o cara especial, o sonho realizado, o príncipe encantado,
o amor, o sabor; não era mais. E agora?
Eu quero tirar ela de mim, como quem retira uma roupa que
um dia cobriu perfeitamente e, que agora não cabe mais. Ela me vestia bem, me
valorizava; era moletom quentinho, edredom abrangente, pijama perfumado. Mas pra
ela, eu roupa velha, closet ultrapassado, tendência do verão retrasado.
Quero arrancar os vestígios dela em mim, afastar de uma
vez a necessidade do beijo. Expulsá-la, como quem despeja um inquilino que não
cuidou bem de sua propriedade. Colaborem, parem de tocar as malditas músicas do Jhon e do
Coldplay. Calem a boca do Lacombe e do Carpinejar. As lembranças doem, ardem; o
sentimento de abandono, nem se fala .
Pra onde eu irei? Me digam? Meus pés não tem outro
destino. Pra onde fugirei? Ela era o meu
refúgio.
Eu queria não querer, mas ainda quero; queria não sentir,
mas ainda sinto. Queria esquecer, mas ainda não consigo. Queria ser forte, mas ainda
não sou. Queria superar, mas ainda sou fraco demais.
O sentimento ainda é o mesmo. A saudade ainda existe, eu
assumo. As lembranças ainda perturbam e assombram. As incertezas e duvidas
ainda martelam. A raiva e o ódio ainda insistem em tomar lugar. O gosto da derrota
ainda está na boca. As promessas ainda buscam entender as mentiras. O mundo
ainda não caiu. Ainda não, mas falta pouco.
Ainda bem, que eu ainda sou o mesmo. Que eu ainda acredito
no amor. Ainda que tantos “ainda” me persigam; aqui dentro bate um coração,
ainda capaz de amar. Ainda bem.
Eu achei que era e percebi que nunca fui.
S.Soares